Lisbon,
14
Julho
2016
|
11:19
Europe/Lisbon

Artigo de Opinião - Jacarandás de Lisboa

Nelson Paciência, Arquitecto, Building Consultancy, CBRE

O jacarandá é uma árvore nativa do Brasil e de outros lugares longínquos da América do Sul. Esta árvore de pequeno porte, crescimento rápido e folha caduca (fora do seu habitat natural), é muito utilizada na ornamentação de ruas, praças e parques, em grande parte devido às suas raízes arrumadinhas e profundas e que não danificam a calçada. Mas são as suas cores e recorte invulgares que as transformam em bilhetes postais de tantas cidades do mundo de clima temperado, adicionando um ambiente tropical em cidades mediterrânicas como Lisboa. A sua floração efémera, em forma de cacho lilás azulado, ocorre entre Maio e Junho, anunciando o fim da Primavera e o início dos dias longos e quentes do Verão. Um par de meses depois, desaparecida a floração roxa, o Jacarandá volta a um aparente anonimato, sem ninguém que dê por ele, até ao próximo Verão.

Apesar da explosão de cor das suas flores e do encanto que trazem à cidade, à malha urbana e à sua arquitectura, as flores engelhadas e caídas sobre o chão, transformadas numa gelatina pastosa, resultam numa espécie de encardido sobre os passeios, salpicando tejadilhos e capôs de automóveis estacionados.

Os efeitos nefastos da floração ressequida dos Jacarandás são como as obras em Lisboa. Sabemos que não duram para sempre, olhamos para elas desejando que o nosso automóvel ou o número do nosso autocarro não passe por ali, que não nos atrase na chegada ao emprego, que não nos “cole os sapatos aos passeios”, que não nos irrite e atrapalhe as vidas, que não nos torne mais “encardidos” logo pela manhã. Desejamos que passem depressa, tão depressa como a floração dos Jacarandás.

A verdade é que as obras recentes no eixo central da cidade de Lisboa, entre as Avenidas Novas e o Marquês de Pombal, não vão ser assim tão efémeras, vão durar até ao início do próximo ano, num teste à paciência dos automobilistas, peões, residentes e comerciantes. Por entre irritações constantes e atrapalhos de vida, o objectivo é claro: diminuir o ruído, aumentar a área pedonal com passeios mais confortáveis, mais ciclovias, árvores e zonas verdes, para uma cidade em reabilitação total, uma Lisboa cada vez mais direccionada para os que nela vivem.

Tenho a certeza que mesmo passando meses de tormenta, quem vive na cidade vai concluir que valeu a pena, que a cidade que se transforma e torna mais bonita, também precisa de melhores e mais sustentáveis intervenções no espaço público, valorizando ainda mais, o que de bom se tem feito ao nível da reabilitação urbana.

Com objectivos talvez similares, e com uma programação (também) nada inocente, estão previstas começar as polémicas obras na segunda circular. Começam ainda este mês e vão durar quase um ano, tornando mais difícil a vida dos cidadãos, mas apesar de tudo, acredito que irá valer a pena. Em toda a sua extensão, desde a Buraca até ao Aeroporto, irão ser plantadas mais de 500 árvores e ao que parece nenhum Jaracandá. E a avaliar pelo encardido de Maio e Junho, ainda bem.